Connect with us

Destaque HOME

André Correia precisa entender que “de boas intenções o inferno está cheio”

Edelvânio Pinheiro

Publicado

em

Compartilhe

Sabe como chamo o vereador André Correia? Zé Banana. Para não ficar para trás, ele passou a me chamar assim também. Mas é bom que se esclareça que o homem da comunicação, a quem ele ofereceu um delicioso café da manhã, com direito a queijo mineiro, cuscuz com canela e farofa amanteigada foi o radialista Damião Alves e não a mim.

Minha filha primogênita, Thathira Mickaelle, desde quando se casou, passou a me chamar de Zé Banana. Até nas redes sociais, ela se dirige a mim desta forma. Não sei por qual motivo ela passou a me tratar desse jeito, deve ser porque sou um pai e avô muito flexível aos apelos dos filhos e netos. Aí eu resolvi tratar André Correia assim também.

O carinho que tenho por André é em razão de uma atenção que a mãe dele, quando foi secretária da Saúde de Itanhém, deu a uma de minhas filhas. Na época, precisávamos nos deslocar quase que mensalmente para Vitória, Espírito Santo, em busca de tratamento na área de otorrinolaringologia.

Durante as últimas eleições, para ser sincero, nem sabia que André Correia tinha pretensão política e muito menos votei ou direcionei, por influência, algum voto para ele. Mas me apaixonei mesmo pelo trabalho desse camarada quando uma seca terrível deixou nossos irmãos itanheenses em situação lastimável, no final de 2016.

Por um longo período, com uma bomba d’água e uns 15 metros de mangueira, diuturna e incansavelmente, ele socorreu os moradores até que o abastecimento de água se normalizou. Claro que não deu para atender a todos que necessitavam. Até hoje minha sogra está esperando a chegada dele na Rua Pedro Pinto, na região que já foi conhecida como ‘Pato Arrepiado’, para abastecer a caixa d’água. Porém, a gente sabe que era praticamente impossível atender a todos os pedidos.

Amigos, mas muito independentes quando o assunto é política e trabalho, até mesmo porque a condição dele de vereador e a minha de jornalista, sempre requer, por questão ética, responsabilidade e sigilo. Quantas vezes publiquei matérias que André Correia, sempre brincalhão, me falou no WhatsApp assim: “Poxa, Zé Banana, porque você não me falou?”. E eu, em outra situação, de igual forma: “Poxa, Zé, eu daria um furo de reportagem se você tivesse me adiantado isso”.

Para se ter um exemplo da questão de saber diferenciar amizade e profissionalismo, eu só soube da criação do Bloco Parlamentar, do qual André Correia faz parte, quando o grupo já estava efetivamente concretizado e, mesmo assim, um cidadão, que nem político é, foi quem me deu a notícia. Tanto é que, no primeiro momento, fiquei batendo cabeça – jornalisticamente falando – como se pode observar nas reportagens que fiz na ocasião sobre o assunto.

Certamente se André Correia tivesse me confidenciado a intenção da criação desse bloco (veja bem), naquela ocasião, eu teria dito que não seria politicamente bom para ele.

André Correia sempre foi diferente dos demais vereadores e a imagem dele estava em alta na opinião pública porque ele sempre se apresentou como político de oposição, como combatente incansável do grupo que atualmente administra o município. Ele estava construindo uma imagem fiel aos princípios que inicialmente se propôs e a minha preocupação era a de que o contato dele com os demais, inclusive com dissidentes ou com aqueles que não foram aceitos pelo grupo de lá, poderia prostituí-lo politicamente. Eu pensava assim, mas nada pude fazer. Afinal, André tem suas convicções e já havia decidido lá com seus botões. Por outro lado, marinheiro de primeira viagem, André Correia não tinha experiência nem havia por trás dele as chamadas “raposas políticas”. Os que não têm por trás as velhas “raposas”, já o são em carne e osso e isso me preocupava grandemente. Tentei até alertá-lo depois, mas vi que estava mesmo perdendo o meu tempo.

A verdade é que, se alguns vereadores do bloco tivessem conseguido fazer acordo com a prefeita Zulma Pinheiro, no início da administração, jamais se aproximariam do vereador André Correia. A intenção de muitos deles era se aproximar do grupo da prefeita, basta ouvir os discursos que fizeram antes de se declararem oposição para entender isso com mais clareza. Ouvi pelo menos três desses discursos que fazem parte do arquivo do nosso site, na manhã deste sábado (28)e, neles, percebe-se que a mudança de posicionamento político de vereadores desse bloco foi vertiginosa, assim, de água para vinho.

O Bloco Parlamentar sempre se apresentou à opinião pública como um grupo unido, com o objetivo único de fiscalizar a administração de Zulma Pinheiro e dos irmãos dela e com o objetivo também de lutar pelos interesses coletivos da população do município, especialmente a mais carente. E é exatamente assim como a opinião pública sempre viu o bloco. Só que, na verdade, cada um dos vereadores tem seus interesses particulares e suas intenções políticas, inclusive dois ou três deles querem ser presidente da Câmara Municipal e, desses, pelo menos um (ou quem sabe dois) é capaz de fazer acordo até com o diabo para ocupar a cadeira de Ronaldo Correia.

Semana passada, André me contava uma história de ingratidão envolvendo uma pessoa que nada tem a ver com o Bloco Parlamentar. Ao citar o caso, ele se dizia decepcionado com a política em razão do não reconhecimento de seu trabalho por uma meia dúzia de pessoas.

Eu o tranquilizei, dizendo que não há homem de unanimidade e que pior que a ingratidão do cidadão comum é a traição que se vê entre os políticos. Disse que há deles que não resistem a um carro novo, a um pagamento de uma dívida protocolada numa nota promissória ou a algumas dezenas de onças pintadas ou garoupas entregues na noite anterior a uma votação decisiva.

André Correia é, sem nenhuma dúvida, um político honesto e me faz lembrar, em nível de comprometimento com a oposição, os vereadores Alfim Nascimento e Amélio Pagio que, na década de 1990, defenderam os interesses da população na administração coronelista de Neco Batista, pai da atual prefeita. Neste ano de eleição, acredito que ele é um dos poucos que conseguirá bater à porta de qualquer cidadão itanheense, com a cabeça erguida à procura de votos para seus deputados.

De agora em diante, André precisa analisar melhor seus acordos políticos, buscar uma segunda opinião quando uma proposta lhe for oferecida assim, do nada e, claro, entender que “de boas intenções o inferno está cheio”.

Edelvânio Pinheiro é jornalista e radialista.