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Crônica zarfeguiana: Quarentena além-ares

Edelvânio Pinheiro

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Ninguém – ouviram? – passa por uma grande experiência – amorosa, estética ou política –

ileso. O descobrimento dum país, uma facada no peito, uma derrota 7X1… tudo isso é para sempre.

O 1º filho – e nascer é a maior das experiências – tinha vindo ao mundo com uma grande missão: descobrir um país, um país qualquer ou qualquer país, mas tinha que ser no ano do senhor de 1966, logo, no século XX.

O problema – e vocês já notaram o xis dele – era encontrar um país que, àquela altura dos acontecimentos, ainda não tivesse sido descoberto. Onde encontrar tal país?

No Velho Mundo, improvável. No Novo, muito difícil. No Novíssimo, talvez…

No século XVI, com certeza, seria mais fácil, contudo… navegar era preciso. E o 1º filho detestava o mar, de maneira que podemos concluir que não tinha herdado nada do espírito aventureiro dos portugueses. Nada, vírgula… pois vivia obcecado por essa história de descoberta…

– Como você iria descobrir o Brasil, no lugar de Cabral, se você detesta água salgada? Me diga, criatura!

– Não detesto, tenho medo mórbido.

– Pior, então. Hidrofobia é coisa séria…

– Com ou sem fobia de água… o fato é que nasci para descobrir um país, de preferência banhado por água doce!

Quando chegou à conclusão de que não existia mais país que pudesse ser descoberto por aqui, no Novo, no Velho ou no Novíssimo Mundo, o 1º filho começou a pensar seriamente na possibilidade de realizar sua missão no Mundo da Lua, com ou sem a ajuda de São Jorge. Por que não?

Lá – só na lua – poderia encontrar um país que ainda não tivesse sido descoberto e, em dois tempos, descobri-lo-ia, como diria Michel Temer.

Já tinha até encontrado a frase apropriada para o grande momento – Terra à vista! –, ainda que fosse uma imitação de Cabral.

Nem vem ao caso agora – ouviram? – se a descoberta de um país é causa ou consequência de alguma coisa, importa informar que o 1º filho começou a se preparar para a grande viagem ao Mundo da Lua.

– Isso está me cheirando a maluquice, a história de lunático.

– Hein? Que seja, mas, pelo amor de Deus, não conte a ninguém. Por enquanto, segredo de estado…

– … a ser descoberto em breve, talquei?

– A viagem está marcada para amanhã, no primeiro trem, mas que isso, repito, fique só entre nós.

– Loucura, loucura.

– Se eu não der notícias nas próximas 48 horas, é porque a quarentena foi um sucesso. Se perguntarem por mim, diga apenas…

– O quê?

– Foi lunático, sonhou e amou a Michelle!

[Por Almir Zarfeg]