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Ensaio Literário: Uma breve apresentação da época, vida e obra do inigualável Lima Barreto

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[Elias Botelho] Em 13 de maio de 1881 nascia, no Rio de Janeiro, Afonso Henriques Lima Barreto. A cidade beirava os 400 mil habitantes, sendo que cerca de 284.000 residiam na área urbana e 116.000 na suburbana. Deste total de pessoas, mais de 140.000 eram escravas. A cidade ainda se comunicava por ônibus de tração animal. Dois anos antes, o Rio de Janeiro presenciou a Companhia de Força e Luz demonstrar um novo tipo de iluminação – a luz elétrica na Estação da Central da Estrada de Ferro D. Pedro II. Um ano antes, 1880, começara a funcionar o reservatório Pedregulho, o maior até então existente que recebia águas provenientes do Rio D’Ouro, para minorar as constantes falta d’água na cidade.

Onze anos depois do nascimento de Lima Barreto, em 1892, no Rio de Janeiro, é inaugurada a primeira linha de bondes elétricos. No entanto, a cidade ainda possuía mais de uma centena de carros e milhares de muares usados no transporte público. Com uma imensa tropa de animais circulando pelas vias públicas, a cidade se debatia com sérios problemas de higiene, principalmente nos finais de linha, no centro.  É de bom alvitre lembrar que a limpeza na parte central da cidade já era servida pela coleta de lixo regular. Tal serviço teve seu início, quatorze anos antes, em 1867. Na época o senhor Aleixo Gary foi contratado para desenvolver o serviço de limpeza pública; daí o motivo de os varredores serem chamados popularmente de “Gari”.  Portanto, é nesse ambiente carioca que Lima Barreto começa a lançar suas crônicas ao público.  E foi nesse Rio de Janeiro dos contrastes e injustiças sociais que fez de suas palavras a voz dos excluídos.

Lima Barreto nasce de uma família de mestiços e, por seus escritos, se nota que sofreu esse preconceito até o fim dos seus dias. De família pobre, mas de um nível cultural médio, teve o amparo de seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto, que o ajudou a ingressar na Escola Politécnica onde iniciou o curso de Engenharia.  Com a morte de sua mãe, a professora primária Amália Augusta, quando tinha apenas seis anos de vida, passou a ser criado por seu pai que enlouquece em 1904, quando ainda cursava Engenharia. Para cuidar dos irmãos menores, Eliézer, Carlindo e Evangelina, com o internamento de seu pai, João Henriques, terminou por abandonar o curso.

Decerto que todos os fatos envolvendo sua família vão influenciar a sua escrita e o seu estilo despojado e realista. Fez uma literatura singular, chocante e criativa onde demonstrava certo romantismo e realismo a um só tempo. Doesse a quem doesse, suas indiretas à elite carioca chocavam a cada dia. Lima Barreto queria ser escritor e, desde cedo, começou a traçar suas observações sobre o ambiente em que vivia. Observava os mínimos detalhes dos prédios, das matas, animais, e tudo que lhe chamava atenção. Tinha preocupação em descrever com minúcias as características de cada localidade do Rio de Janeiro. Tal era a descrição de objetos e pessoas que parecia estar escrevendo não só para o público carioca de então como para o mundo. Era como se sua obra estivesse sendo feita para o futuro. Anos depois, isso ficou evidente.

Lima Barreto soube como ninguém de seu tempo lutar contra o preconceito racial.  A escrita foi sua maior arma para denunciar os desmandos políticos e autoritários contra os pobres e desvalidos espalhados pelos subúrbios cariocas. Seus textos demonstravam de forma cabal as diferenças entre o centro e o subúrbio.  Diferente de Machado de Assis, que era aplaudido pela elite literária de seu tempo, sentia ele na pele o desprezo desta. De outra parte, sem o comprometimento com tal elite, se sentia livre para expressar de todas as formas e sem hipocrisias. Os negros estavam presentes no seu cardápio literário, assim como as mulheres e os que se apresentavam como libertários. Sabia que até entres os colegas do Ministério da Guerra era malquisto e visto como demente. As suas crônicas sempre com tom crítico e denunciador começavam a causar espanto pelas ideias radicais nelas inseridas. Desprezado por muitos e já admirado por outros tantos, não recuou do seu intento de mostrar como os cariocas de todas as “castas” viviam e suportavam a indiferença do governo republicano.

Apesar de ter nascido após a abolição da escravatura, ele não deixou de emitir críticas àqueles que insistiram e protelaram o fim da escravidão. O seu descontentamento era, principalmente, em relação à demora para banir de vez a escravidão no país. E indignava por saber que o Brasil foi o último país do ocidente a livrar os negros do regime escravista.

A bebida desde cedo foi o alívio para muitas mágoas nos momentos de tormentos. Nas suas crônicas e romances, “parati”, bebida muita apreciada na época, sempre é ingerida por seus personagens.  O vício pela bebida o deixava insociável e o afastava mais dos amigos. Era, por vezes, inconveniente e desagradável.  Não se sabe ao certo se teve um amor correspondido, pois, sabe-se, tinha dificuldades para se relacionar com as mulheres. Certo é que suas bebedeiras não eram nada saudáveis à sua vida em todos os sentidos; tanto que lhe custaram alguns internamentos em casa de manicômio. É visível nos seus textos, principalmente em Triste fim de Policarpo Quaresma, o tema loucura. Ele faz um liame entre sua vida e a loucura predominante em toda sua existência, direta ou indiretamente.

Um fato que merece considerar foi quando seu pai se mudou para a Ilha do Governador, para trabalhar próximo do hospício. Ali que passa a viver e ouvir casos de loucos ou alienados como eram denominados, e que certamente marcaria sua vida e o seu fim.   Foi ali que teve contato direto com a natureza em tenra idade. Fazia de tudo de uma criança de seu tempo. Subia nas árvores, corria pelos campos e matas, capturava aves com armadilhas feitas com galhos de árvores, etc. Lugar que lhe serviu de inspiração para muitos momentos de suas obras, principalmente, Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Lima Barreto sempre teve a preocupação de narrar de forma a retratar os lugares por onde passava e vivia a sua experiência pessoal. Ele construía em forma de crônica, conto, novela ou romance sua biografia ou autobiografia.  Um dos exemplos claros disso é o liame que faz entre o Sítio do Carico na Ilha onde foi morar após a morte de sua mãe.  Sítio que fica adjacente ao Morro do Carico; daí o nomeEm Triste fim de Policarpo Quaresma, o sítio “Sossego” é uma demonstração cabal onde a realidade é transformada em ficção.  Quase todas as características do sítio onde morou, até o ano de 1902, estão descritas com algumas nuanças: paisagem e geografia. Quase tudo que é descrito no capítulo I da segunda parte de Triste fim de Policarpo Quaresma remete à experiência que passou pela internação no Hospital Nacional de Alienados, na Urca, na Praia Vermelha, em 18 de agosto de 1914.  Assim descreve no livro:

“A casa erguia-se sobre um socalco, uma espécie de degrau, formando a subida para a maior altura de uma pequena colina que lhe corria nos fundos. Em frente, por entre os bambus da cerca, olhava uma planície a morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regato de águas paradas e sujas cortava-a paralelamente à testada da casa; mais adiante, o trem passava vincando a planície com a fita clara de sua linha capinada; um carreiro, com casas, de um e de outro lado, saía da esquerda e ia ter à estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino”.

Adiante, no mesmo capítulo, Lima Barreto relata, inclusive aludindo, o aspecto de loucura pela qual passara no manicômio na personagem de Quaresma:

“Quaresma viveu lá, no manicômio, resignadamente, conversando com os seus companheiros, onde via ricos que se diziam pobres, pobres que se queriam ricos, sábios a maldizer da sabedoria, ignorantes a se proclamarem sábios; mas, deles todos, daquele que mais se admirou, 137 foi de um velho e plácido negociante da Rua dos Pescadores que se supunha Átila. Eu, dizia o pacato velho, sou Átila, sabe? Sou Átila. Tinha fracas notícias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou Átila, matei muita gente – e era só”.

Em Cemitério de Vivos fica claro sua obsessão ou necessidade de narrar sua própria biografia. Percebe-se, de logo, que a história ali narrada é a sua própria vida pessoal. Ele fazia suas narrações até como forma de aliviar suas mágoas, ressentimentos e depressões. Talvez alguns textos foram escritos apenas como registro pessoal e sem a intenção de torná-los públicos como é o caso de em Cemitérios de Vivos que no capítulo segundo expressou:

“Entrei no Hospício no dia de Natal. Passei as famosas festas, as tradicionais festas de ano, entre as quatro paredes de um manicômio. Estive no Pavilhão pouco tempo, cerca de vinte e quatro horas. O Pavilhão de observação é uma espécie de dependência do Hospício a que vão ter os doentes enviados pela polícia, isto é, tidos e havidos por miseráveis e indigentes, antes de serem definitivamente internados.”  

A sua ojeriza pelos políticos de sua época era tão implicante e intrigante que por vezes o afastava de alguns amigos.  E sua inquietação pelos acontecimentos políticos que, a seu ver, contrariavam os mais pobres e negros, ia a cada dia de sua vida acalorar seus ideais de justiça. E o único modo de ser ‘ouvido’ era através de suas crônicas e contos publicados nos jornais e bem mais tarde em livros. Não perdia a oportunidade de introduzir por seus personagens diálogos com tal referência ou aludindo a determinado político como veremos, por exemplo, em Clara dos Anjos:

“– Vocês vão ver: o Clapin está aí, está morto na política, Teve o topete de ir contra a corrente popular, espetou-se. Quem ganhou foi o barbudo Melo Brandão, esse judeu mestiçado. É um safadão, é mestre na política.

Joaquim se interessava mediocremente por essa história de política: mas Lafões tinha as suas paixões no negócio e acudiu:

– Qual o quê! Então você pensa, Marramaque, que um homem inteligente, tão superior, como o doutor Clapin, vai se deixar embrulhar por um trapaceiro de atas e coisas piores como o Melo Brandão! Qual o quê! Demais, o operariado…”

Com isso, ele parecia não se importar com o que iam pensar sobre o que denunciava. Ao mesmo tempo Lima Barreto imaginava que era injustiçado por falar em nome dos mais desfavorecidos e, de outra parte, queria ser reconhecido como pensador e escritor, mas os poderosos e os críticos literários faziam pouco caso sobre o que escrevia. Eram poucos os que se importavam em fazer suas considerações acerca de sua obra. Havia, sobremaneira, um silêncio sobre isso, e é justamente esse silêncio que o atormentava mais ainda. Existia certa ambiguidade no seu comportamento, pois, ao mesmo tempo em que buscava o reconhecimento, se insurgia com quem, em tese, podia fazê-lo. Era um crítico ferrenho do servidor público, mas se sustentou e até se aposentou por um decreto presidencial antes dos quarentas anos devidos aos seus problemas com o alcoolismo, com ganhos de um órgão estatal. Outra contradição era que defendia arduamente a cultura popular como nenhum outro jornalista, paradoxalmente detestava manifestações populares a exemplo do carnaval, futebol e samba. E, por último, trata-se do caso da Academia de Brasileira de Letras: queria ser membro dela, mas a criticava veemente. Certo é que Lima vivia em drama constante: agradar a Deus e ao Diabo. Pois tudo isso o levava ao desespero e, para amenizar suas inquietudes, se metia pelos botequins noite adentro em bebedeiras, dormindo em lugares inóspitos. Lima era também um crítico das elites que só enxergavam a Europa ou a América do Norte.  Interessante que, apesar de suas críticas, justas por sinal, era bem informado sobre tudo que se passava pelo Velho Mundo.

Ele se inseriu nos seus escritos, não somente como narrador ou contador de histórias, mas também como personagem. O subúrbio de Todos os Santos foi um dos cenários que retratou com maestria. Suas viagens de trem foram retratadas em vários momentos nos seus textos.  Viajando sempre na segunda classe dos vagões, pôde observar com minuciosidade a vida daqueles miseráveis suburbanos, em tamanho maior, e quase igualmente negros. Por volta de 1900 percebe que outros pobres miseráveis, uns conterrâneos e tantos outros não, perambulavam pelas ruas da capital e o subúrbio carioca. É a partir da chegada desses novos habitantes que o Rio vai começar a mudar a paisagem nos morros.  Isso se deveu ao fato do final da “Guerra de Canudos” em 5 de outubro de 1897 na Bahia.  O Governo de Prudente de Morais naquela ocasião resolveu pôr fim na comunidade do arraial de Canudos que aparentemente se insurgia contra a soberania da recém-criada República. O massacre contra a vida de miseráveis foi, sem dúvidas, uma das maiores barbáries patrocinadas pelo Estado brasileiro. Lima Barreto vai, mais adiante, tratar especificamente desse tema: o surgimento de moradias espalhadas pelos morros cariocas que se denominarão de favelas. Vale destacar que, assim que o massacre acabou, milhares de soldados foram enviados ao Rio de Janeiro pelo Governo que lhes prometera doar casas, além de pagar os soldos atrasados. Sem condição de arcar rapidamente com o acordado, esses soldados ocuparam os pés dos morros cariocas, que seriam provisórios, e por lá permaneceram. Dessa ação, depreende-se que o governo exterminou pobres que viviam num lugar quase que inóspito e trouxe os seus “algozes” para formar outra comunidade de miseráveis sem nenhum planejamento. Logo, soldados e ex-escravos transformaram os morros num amontoado de casas irregulares formando as conhecidas “favelas”, em referência ao “Monte da Favela”, existente em Canudos como narrou Cunha em “Os Sertões”: “O monte da Favela, ao sul, empolava-se mais alto, tendo no sopé, fronteiro à praça, alguns pés de quixabeiras, agrupados em horto selvagem. À meia encosta via-se solitária, em ruínas, a antiga casa da fazenda…”

Lima foi talvez o escritor da recém-criada a República que mais defendeu os moradores das favelas nos seus escritos. No entanto, só dois anos antes de sua morte, intensifica suas críticas à falta de infraestrutura naquelas localidades. Chegou a ironizar aqueles tipos de moradias penduradas nos morros e espelhadas em áreas de terrenos impróprios, e que se podiam ser avistadas de longe, tanto de quem olhava de baixo para alto, como do alto para baixo. E assim dizia que aquelas habitações eram a imagem por excelência da pobreza da cidade do Rio de Janeiro.

Lima foi, sem dúvidas, um visionário. Foi de igual maneira utópico em relação ao seu tempo. É de entender que viveu um período de transição – da Monarquia para a República.  Ele preferia a monarquia, pois sentia que a República, que tinha expectativa de mudanças melhores, de libertação e condições dignas para a população, não correspondia. A democracia tão propalada não passava de engodo. Havia de certa forma uma repressão velada. Eram prisões desnecessárias, polícia violenta, desmandos administrativos, que certamente iam para a ponta de sua pena.

Ele adorava escutar o som de violão. Quando estava nos botequins, em roda de boêmios, se divertia o quanto podia por noites sem fim com modinhas e bebedeira com “parati”.  Tanto é real que no livro Triste Fim de Policarpo Quaresma, ele começa o romance com o título do primeiro capítulo: “A LIÇÃO DE VIOLÃO”. Há dúvidas se ele tocava violão, entretanto, como narra neste capítulo, era como se tivesse tentando aprender o instrumento:

Mas não foi preciso pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão. Mas que coisa? Um homem tão sério metido nessas malandragens.”

Percebe-se ali também mais uma vez que a personagem – Quaresma – é à sua imagem e semelhança – criador e criatura. Inicia o seu texto traçando seu próprio perfil como funcionário público em cargo de destaque que não era o que exercia na prática:

Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às vezes, e sempre o pão da padaria francesa.”

Em Clara dos Anjos, novamente Lima Barreto relata a sua predileção pelo violão. Cassi é a personagem que usa o instrumento para viver em rodas de boêmios e chamar atenção de donzelas desavisadas:

“Era Cassi um rapaz de pouco menos de trinta anos, branco, sardento, insignificante, de rosto e de corpo; e, conquanto fosse conhecido como consumado ‘modinhoso’, além de o ser também por outras façanhas verdadeiramente ignóbeis, não tinha as melenas do virtuose do violão, nem outro qualquer traço de capadócio, Vestia-se seriamente, segundo as modas da rua do Ouvidor;…”

Dos personagens o que mais identifica com ele, fisicamente, é o doutor Praxedes de Clara dos Anjos, quando descreve as características corporais do advogado. Destes detalhes um não é coincidente, pois a estatura do  personagem é baixa, enquanto a do seu criador é  alta.

“O cavalheiro digno de nota era um preto baixo, um tanto corcunda, com o ombro direito levantado, uma enorme cabeça, uma testa proeminente e abaulada, a face estreitante até acabar num queixo formando, queixo e face, um V monstruoso, na parte anterior da cabeça; e, na posterior, no occipital desmedido, acaba o seu perfil monstruoso. Chamava-se Praxedes Maria dos Santos; mas gostava de ser tratado por doutor Praxedes.”

De todas as obras de Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma foi a que deu em vida ao autor o reconhecimento merecido. Uma obra publicada inicialmente em fragmentos no Jornal do Comércio durante três meses de 1911. O primeiro folhetim foi às bancas em agosto, e o último em outubro do mesmo ano. Só em 1916 sua obra-prima virou livro impresso às duras penas. Para que seu sonho concretizasse, foi necessário tomar dinheiro emprestado de muitos conhecidos, e onzenários, seus colegas de repartição no Ministério da Guerra.

Barreto, se fosse um pintor, faria o mesmo que fez com a escrita, pintaria com naturalidade e criatividade o Rio de Janeiro do seu tempo e a alma carioca.  Evidente que mostraria o belo e feio com realismo e sem máscara.

Lima Barreto nos presenteou com obras-primas: Romance: Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909); Triste fim de Policarpo Quaresma (1915); Numa e a ninfa (1915); Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919); Clara dos Anjos (1948). Sátira: Os bruzundangas (1923); Coisas do Reino do Jambom (1953). Conto: História e sonhos (1920).

Lima deixa claro em alguns escritos que se tornara adepto do anarquismo. Pois, segundo ele, eram os anarquistas que mais se opunham ao lado dos pobres. Eram mais humanos, e fazia isso no Jornal do Trabalhador. Por isso, era ultrajado com críticas ferrenhas pelos seus opositores literários e políticos. Barreto foi muito pobre, não tão pobre como os que defendia nos seus textos. Certo que ganhava como servidor, mas não era o bastante para sustentar sua família e seus vícios. A sua casa nos últimos dias de sua vida tinha um aspecto de pobreza incomensurável. Quem o via pelas cercanias do centro da capital, principalmente, na Rua do Ouvidor, metido num terno sujo com alguns sinais de vômitos e malcheiroso, em alguns momentos, não imaginava que existia ali um homem espirituoso e indignado com a vida miserável dos seus descendentes e outros excluídos. Podia assim ser compreensível o desprezo pela sua figura.

Ele era chato e intrigante quando bebia e defendia oralmente seus ideais. Pena que em vida não teve o reconhecimento devido de um homem que usou apenas a escrita para mostrar as injustiças cometidas a tantos miseráveis. Graças ao seu talento, podemos hoje conhecer não só um registro de uma época, como apreciar um novo estilo de escrever. E foi justamente esse descendente de africano que rompeu com um estilo, até então, recheado de pragmatismos e feições lusitanas.  Pode-se afirmar que inaugurou um estilo brasileiro de escrever, claro, e não podia ser diferente, carregado de resquícios da literatura vigente. Vide Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida, Aluísio Azevedo, etc. Descreveu como ninguém a cidade do Rio de Janeiro e seus subúrbios. Em poucos anos de vida, Lima Barreto produziu o bastante para nos suavizar com seu brilhantismo literário. Foram muitos acontecimentos publicados em relativo período de vida. Sua vida foi, sem dúvidas, uma loucura. E se existe uma alma carioca é porque existiu Lima Barreto.

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Elias Botelho é escritor e advogado. Ocupa a Cadeira 33 da Academia Teixeirense de Letras (ATL).

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Quando a natureza ajuda o seu sorriso! Aprenda

Uma lista muito especial de alimentos que vão fazer você brilhar.

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[Terra]

Limão

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Eucalipto

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‘Paradoxo do exercício’: o motivo pelo qual somos tão preguiçosos

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[Veja]

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 25% dos adultos e 80% dos adolescentes não se exercitam o bastante, ainda que os efeitos positivos na saúde física e mental sejam estabelecidos e amplamente difundidos. A explicação para essa controvérsia pode estar no nosso cérebro. De acordo com um estudo publicado recentemente na revista Neuropsychologia, as pessoas enfrentam constantemente um conflito interno entre manter hábitos saudáveis – como ir para a academia ou praticar algum esporte – e fugir deles, em um fenômeno conhecido como ‘paradoxo do exercício’.

Os pesquisadores da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, descobriram que o cérebro humano está programado para se sentir mais atraído pelo comportamento sedentário, que é considerado um dos principais fatores de risco de morte no mundo, além ser frequentemente associado ao surgimento de problemas cardiovasculares, câncer e diabetes. A pesquisa mostrou também que quando tentamos mudar esta realidade, temos que ativar mais recursos cerebrais para superar os instintos naturais da preguiça.

Esses instintos, na verdade, fazem parte da evolução humana. “Conservar energia sempre foi algo essencial para a sobrevivência do ser humano por permitir que seja mais eficiente na busca por comida, achar um refúgio, competir por um par sexual e evitar predadores”, explicou Matthieu Boisgontier, um autores do estudo, em entrevista ao site da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá. Apesar de a vida moderna ter sido facilitada pela tecnologia, os instintos de sobrevivência ainda são parte fundamental da nossa espécie.

A pesquisa

Para desvendar o mistério por trás do paradoxo do exercício, a equipe observou a reação cerebral de 20 voluntários (homens e mulheres) por meio de eletroencefalogramas (exame que registra a atividade elétrica do cérebro). O principal requisito para participação no estudo era o interesse por atividade física, ainda que a frequência do exercício fosse baixa.

No experimento, os participantes foram submetidos a um teste de computador no qual controlavam um avatar. Durante o teste, surgiam imagens na tela em que as figuras se exercitavam (subindo escadas ou andando de bicicleta). Em seguida, aparecia outra figura, que estava parada (deitada em uma rede, por exemplo).

Os participantes precisavam aproximar o avatar o mais rapidamente possível de imagens que indicavam movimento, afastando-se das imagens sedentárias. O contrário também foi solicitado: eles tinham que se aproximar rapidamente das figuras preguiçosas, evitando os exercícios. Todo o teste foi monitorado por eletrodos que registravam a atividade cerebral.

Força de vontade

De acordo com informações da rede BBC, os pesquisadores notaram que os indivíduos foram, em geral, mais rápidos ao moverem seus avatares na direção das imagens de atividade física. Entretanto, o monitoramento do cérebro apontou que para fazê-lo, os participantes gastavam mais poder intelectual, o que demonstra uma disparidade entre a intenção e o que, inconscientemente, o corpo deseja.

“Já sabíamos, por estudos anteriores, que as pessoas eram mais rápidas em evitar comportamentos sedentários e buscar comportamentos ativos. A novidade é que nosso estudo demonstra que isso tem um custo, um maior envolvimento de recursos cerebrais. Esses resultados apontam que nosso cérebro é naturalmente atraído pelo sedentarismo”, disse Boisgontier.

Embora os resultados tenham revelado com mais clareza a relação entre o cérebro e a preguiça, a equipe admitiu que o estudo é pequeno e, portanto, mais investigações são necessárias para compreender melhor – e quem sabe potencializar – a força de vontade demonstrada pelos voluntários.

Evolução

Segundo informações do site especializado Medical News Today, um artigopublicado na revista científica Current Sports Medicine Reports, em 2015, indicou que as diretrizes de saúde pública apresentam resultados modestos justamente por causa deste processo evolutivo evidenciado pelo novo estudo. Segundo Daniel E. Lieberman, autor do texto, as pessoas estão propensas a seguirem o instinto de conservação de energia, preferindo optar pela facilidade de manter-se sedentário e ainda exagerar na ingestão de alimentos obesogênicos (produtos químicos encontrados em embalagens e em alimentos) altamente processados.

Ele ainda explicou que esses instintos só se tornaram um problema na sociedade moderna porque não precisamos mais procurar alimentos. Para combater o problema da inatividade, a recomendação é tornar a atividade física mais divertida ou reestruturar os ambientes para que exijam mais exercícios. “Até que possamos fazê-lo efetivamente, podemos esperar permanecer presos em um círculo vicioso no qual, ao tratar os sintomas e não as causas de doenças causadas pela inatividade física, permitiremos que o paradoxo do exercício persista e piore”, escreveu Lieberman.

Assim, cabe a nós tentarmos superar essa ‘preguiça natural’. E nem precisamos de muito para nos mantermos saudáveis: 150 minutos de exercício moderado ou 75 de atividade intensa por semana já são o suficiente para melhorar a saúde, aponta a Associação Americana do Coração (AHA, na sigla em inglês).

FOTO: O cérebro humano está programado para se sentir mais atraído pelo comportamento sedentário. (iStock/Getty Images)

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Zarfeg dedica poema a Odilon Botelho, que acaba de celebrar 90 anos de idade

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[Edelvânio Pinheiro] O poeta e jornalista Almir Zarfeg dedicou o poema “Bom e velho Dila” a Odilon Botelho, que no último domingo (23) celebrou seus 90 anos de existência no Clube Recreativo Ribeirão do Ouro (ARVO), em Itamaraju.

A confraternização, que se estendeu pelo domingo adentro, reuniu familiares e amigos do patriarca. De Teixeira de Freitas, os acadêmicos Almir Zarfeg e Athylla Borborema compareceram para prestigiar o evento. Juntamente com Elias Botelho, filho do aniversariante, os três são membros da Academia Teixeirense de Letras (ATL).

O evento envolveu a parte religiosa, marcada pela celebração da vida e pelos agradecimentos a Deus. A seguir, os filhos “tiraram o chapéu” para o patriarca por tudo que ele representa para seus descendentes, filhos, netos e bisnetos. Depois, houve os comes e bebes ao som da melhor MPB. O resto do domingo foi consumido pela alegria, encontros e reencontros e, enfim, pela celebração da vida em abundância.

No belo poema, o poeta trata dos temas da bondade e da velhice. Como se estivesse exortando ou orientando, ele diz que “a bondade é invisibilidade” “como sair de fininho”.

Ao citar a velhice, ele sustenta que ela, ao contrário da bondade, tem idade. E é vista como prêmio por algumas pessoas e, também, como castigo por outras. Mas conclui afirmando que a velhice é “voltar a ser criança”.

“Este poeminha foi a maneira que encontrei para homenagear os 90 anos do bom e velho Dila, a quem tive a honra de ser apresentado numa bela noite acadêmica”, disse Zarfeg à reportagem do Água Preta News.

BOM E VELHO DILA

A bondade, meninos e meninas,

É invisibilidade

Como sair de fininho

O espírito duma época

Como o pôr do sol

O bucolismo inocent

A bondade não tem idade

Não é grega nem cristã

Não costuma se anunciar

Mas nunca falha

É preciso ser bom um

Pouco mais

Para sê-lo o bastante

Possível

Homem bom é homem

Raro

Homem mau é homem

Banal

Já a velhice tem idade:

Prêmio para uns

Castigo – diz o sábio –

Para outros

Com certeza, voltar a ser

Criança

Estar – se achar – na

Simplicidade

                               Os confrades Zarfeg, Elias Botelho e Athylla Borborema

FOTOS: Daniel Borges

 

 

 

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