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Flávio diria à mãe: “É de batalhas que se vive a vida, nada acabou”

Edelvânio Pinheiro

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Crônica de Edelvânio Pinheiro

Depois de um dia triste e cinzento todos repousam o corpo cansado, mas a mãe de Flávio Ramon, morto eletrocutado no Colégio São Bernardo, não. Ela até fecha os olhos inundados de cansaço e angústia, mas a imagem do filho insiste em passear sobre sua pupila como um sol de lembranças.

Lembranças de Flavinho quando chorou pela primeira vez, quando deu os primeiros passos, balbuciou as primeiras paroxítonas, sentiu febre e pediu colo chorando depois de cair do sofá. Lembranças do primeiro dia na escola, das tarefas que fizeram juntos, da ansiedade nos dias de prova e das notas azuis no boletim. Lembranças do Dia das Crianças, do aniversário de 15 anos, do primeiro uniforme de capoeira e da camisa do Flamengo. Lembranças também dos ensinamentos pra vida e das advertências sobre os perigos escondidos na beleza da existência.

Naquele dia tudo parecia estar bem nessa vida de lutas. Era uma quinta-feira como qualquer outra: a rotina seguia sua coreografia, o caminho era o mesmo, a casa, as janelas abertas, o sorriso dos irmãos e o café, também. Flávio se despediu e seguiu para a aula de Educação Física. Estava lindo, olhos brilhantes e atentos; porte ainda franzino, mas elegante.

Pouco tempo depois, a mãe estava em frente ao caixão do filho na Capela da Ressurreição, onde as flores pousam e as pessoas, desacreditadas, choram.

Do lado de fora –longe dos pêsames – o tio Almir ficou sentado por horas olhando o universo grande e silencioso: “Flávio, meu nego, seria um absurdo dizer que essas estrelas brilham mais que você”. No celular, com os dedos ainda trêmulos, um amigo questiona o irremediável: “Logo ele, por quê?” Outro tenta amenizar a dor: “Ele está no jardim, do lado de Deus”. E, assim, a galáxia das redes sociais, de repente, ficou resplandecente de inspirações e saudades.

Depois veio o cortejo e familiares e amigos de fé seguiram os últimos passos de Flávio, o estudante educado, gentil e de sorriso largo.

Foi uma fatalidade!

Mas, se esse infortúnio tivesse chegado para a mãe de Maria, Lucas, Eduarda, Carlinhos, Felipe, Mariana, Andrezinho, Alice ou João? Não seria negligência?

“O trem das sete horas” passou para Flávio e ele seguiu rumo ao paraíso, só que precocemente. Mas, quatro dias antes, deixou em sua última publicação no Facebook recado a todos aqueles que o amam: “Não diga que a vitória está perdida, tenha fé em Deus, tenha fé na vida”. O trecho é de uma das mais belas canções do mestre Raul Seixas, com título bastante sugestivo: “Tente outra vez”.

A mãe de Flávio disse aos jornalistas que, com a morte do filho, a vida dela havia acabado. Sendo um adolescente de fé e esperança ele, citando o mestre, diria a todos, especialmente à mãe: “É de batalhas que se vive a vida, nada acabou”.

Veja música “Tente outra vez”, de Raul Seixas, na versão de Tsubasa Imamura:

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