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Minha primogênita é o soneto de fidelidade mais-que-perfeito

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[Republicação de Crônica de Edelvânio Pinheiro]

A casa de telha cumbuca era apenas mais uma da Rua Belo Horizonte. Era lá que fazíamos algodão-doce de todas as cores para adoçar a vida da criançada do bairro e de toda a cidade. Dias difíceis, mas que a minha mãe, Maria Pinheiro (in memoriam), me ensinou a vencer com dignidade. Ainda que ganhássemos tão pouco o sono que pousava no meu e no travesseiro de todos da família era imperturbável como o toque da chuva no telhado.

O enredo dos dias caminhava nas páginas das terras de Água Preta: campinhos de chão batido, amigos ilustres, o café escaldado com farinha pela manhã e o carrinho de pipoca que, no início da noite, fazia chuva ou sol, precisava estar na Praça da Liberdade para ganhar o pão de cada dia.

Geraldo Murta, apesar do ciúme da biblioteca que tinha perto do “curral da matança”, deixava eu trazer pra casa alguns escritores ilustres. Um certo dia, debruçado em um desses livros descobri o significado da poesia de Luiz Vaz de Camões: “o amor é fogo que arde sem se ver”.

Para mim, ainda muito jovem, ter a resposta desse verso era ter o significado inverso de todas as coisas que a gente vê para depois amar.

Respirei profundamente! Eu seria pai pela primeira vez.

(Com a permissão do poeta lusitano) “O amor era dor que desatinava sem doer” e eu já amava o presente antes mesmo de tê-lo nos braços. Amava desesperadamente como amei o sorriso cintilado de Maria Pinheiro, quando viu a neta pela primeira vez no berçário do Hospital Maria Moreira Lisboa.

Thathira Mickaelle me fez “nunca contentar-se de contente”. Desde que nasceu sempre foi o girassol cor-de-rosa dos meus olhos e o autorretrato da avó Maria Pinheiro que ela tanta ama e idolatra.

Costumo dizer que as duas se amarão por toda a eternidade e que a luz de uma completa a felicidade da outra. Minha filha, como a avó, leva consigo a herança da coragem, da obstinação e do amor ao próximo.

Minha primogênita significa o sol entrando em casa, a tradução singular da poesia de Camões. É o presente mais bonito que Deus me enviou e que amei desde o primeiro momento que soube que chegaria. Ela iluminou aqueles dias difíceis e foi uma ponte que, inegavelmente, me encorajou a vencer.

Por ela enfrentei e venci mil dragões e posso dizer que os continuo vencendo para ser, até o fim, exemplo de pai e amigo a todos aqueles que não desistem de amar sua família.

A minha menina de sorriso colorido, que hoje é bacharel em Direito e mãe de Bento, nunca deixou de ser o meu soneto de fidelidade mais-que-perfeito, com rimas que me sorriem e métricas que me abraçam como as metonímias magistrais das aldravias.

Thathira
autorretrato
de
Maria
primogênita
poesia

Thathira
sinonímia
prefeita
do
primeiro
amor