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Reconheço que preciso ‘desinventar’ o missionário beija-flor

Edelvânio Pinheiro

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Um áudio do missionário Marcos dos Santos deixou em polvorosa as redes sociais na manhã desta quinta-feira (28).

Tantas opiniões, muitas delas calorosas e impiedosas, mostraram que ninguém se esqueceu do dia em que, eufórico, batizei Marcos de “missionário beija-flor”. Eufórico porque, diante de um mundo que não oferece bondades, o altruísmo passa a ser digno de nota, digno de crônica e digno também da euforia de um jornalista, digamos, até experiente como eu que, hoje, assim como muita gente, recebeu com surpresa as declarações do missionário.

A crônica do missionário que o caro leitor pode reler aqui foi inspirada na parábola de um beija-flor, que insistia em salvar uma floresta em chamas, levando água no bico, ou seja, com seus próprios meios, apesar da sua fragilidade. Como se sabe, a parábola é um jeito poderoso de nos ensinar sobre os acontecimentos existenciais.

Foi assim que retratamos o trabalho solidário do missionário Marcos que, até então, parecia existir sem nenhum interesse político, sem o enfadonho discurso da velha política, aquela que troca comida por voto. Hoje, no entanto, o missionário, em seu malfadado áudio, desmentiu nossas expectativas e a ele mesmo, quando afirmou alto e bom som, que faz o seu discurso político em favor da prefeita Zulma Pinheiro em todas as casas que ele deixa uma feirinha, remédio ou uma botija de gás.

Inegável que muitas pessoas carentes, vítimas do descompromisso social desta administração, através do missionário solidário, já dormiu sem o barulho da fome e sem os gritos da dor, mas essas mesmas pessoas,  junto com a comida ou o remédio, precisaram engolir o aborrecido recado do missionário político que recebe salário da Prefeitura de Itanhém para fingir que está fazendo assistência quando, na verdade, está engordando ovelhinhas para uma família de lobos que, apesar de já derrotada pela opinião pública, insiste em não aceitar a alternância de poder, um dos mais belos gestos do princípio democrático.

A salada que o missionário insiste em fazer com política e religião, demonstrada claramente em seu áudio, parece meio indigesta. Um questionamento de uma usuária das redes sociais chamou a atenção deste jornalista: “Antes dele entrar na prefeitura [na política], ele já tá jogando sujo, imagina quando ele cair lá dentro?”.

Não é de hoje que, em Itanhém, pessoas necessitadas buscam recursos em grupos de WahtsApp para conseguir atendimento médico, remédios e comida. Já exausta dessa situação, muita gente também tem usado as redes sociais para fazer o papel do beija-flor, não daquele que sai às casas da população carente entregando feira e pedindo voto, mas daquele que luta para renovar a política sem os terríveis monstros da mentira, da desonestidade e da corrupção.

Mas parece que o fogaréu da floresta continua a arder sobre todos nós. Ainda bem que a internet é como o vento que não só atiça as fogueiras, mas também cuida de apagar as pequenas labaredas e sempre será implacável com quem quer promover políticos inescrupulosos, que enganam e não se importam com o fortalecimento do comércio local, com a qualidade da educação, com o esgoto a céu aberto que atormenta a vida dos moradores dos bairros mais afastados, com o atoleiro das estradas, com o isolamento de pontes, com a falta de médicos, dentistas e remédio nos postos, com hospital que verdadeiramente funcione e com a mãe desesperada que, sem casa pra morar, sobrevive com seus dois ou três filhos, com R$ 120 do bolsa-família do governo federal. Pessoas que desejam servir a dois senhores, como lamentavelmente se mostrou o missionário, não se dão bem na política e muitos menos nas redes sociais, cujos diálogos são transmitidos numa velocidade estonteante.

Isso serve para o itanheense refletir que a mudança deve partir dele mesmo e ensinar que a prática da bondade deve estar em um patamar bem acima de qualquer que seja o interesse, inclusive o interesse político. Serve também para lembrar aos religiosos que o amor ao próximo não pode ser trocado por nada, muito menos por voto. E se alguém desejar praticar esse amor de modo falso e leviano, que não se esqueça de que Deus tudo vê.

Permitam, meus nobres leitores, me lembrar da bela canção de Chico Buarque:

“Você que inventou a tristeza, ora tenha a fineza de ‘desinventar’…”

Nesta quinta-feira, pelo grande respeito que tenho àqueles que leem meus textos há 25 anos, eu tenho a fineza de desinventar o beija-flor que vinculei ao missionário Marcos, mas, se por acaso esse beija-flor já estiver imortalizado, eu continuo com a canção de Chico: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.