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Se for a Salvador, veja o mar por todas as janelas que puder

Edelvânio Pinheiro

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[Crônica de Edelvânio Pinheiro*] Naquela manhã as águas da Baía de Todos os Santos estavam plácidas e majestosas. Eu aguardava para ser atendido no Sindicato dos Radialistas e lá do quinto andar, num pequeno espaço entre dois prédios vizinhos, visualizei o oceano e me pus a pensar nas histórias que cabiam naquele horizonte limitado pelas construções verticalizadas. O sindicato fica próximo à famosa praça que leva o nome de Castro Alves, poeta abolicionista e ilustre filho da Bahia.

Na sala da recepção, em um quadro na parede, vi o famoso poema “Caminhando com Maiakovski”, de Eduardo Alves da Costa, escrito no período da ditadura. Dadas as atuais ameaças ao estado democrático de direito, é um bom momento para relembrar:

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

Admirava mais uma vez os versos que nos ensinam o valor da coragem e da liberdade quando observei, entre os prédios, um barco com um pescador solitário no oceano.

A imagem do mar entre a selva de pedras, como uma inspiração, desceu comigo no elevador, depois do atendimento cortês e do café, que gentilmente me serviram. A inspiração de que, como eternos navegadores, precisamos continuar a incansável viagem da liberdade de expressão e seguir velejando com coragem, responsabilidade e sensatez em busca dos nossos direitos.

Foi o que nos ensinou Castro Alves e é o que nos ensina Eduardo Alves e o mar também, que permanece sendo o espelho do sol. Ainda que cresçam os prédios, ele desponta impávido de alguma janela, sobrevivente ao tempo e, se preciso for, tempestuoso, para que ninguém lhe arranque a voz da garganta.

Se o caro leitor for a Salvador, veja o mar por todas as janelas que puder. Visite a Igreja de São Francisco, no Pelourinho, um dos mais belos exemplos do barroco português no mundo e não deixe de conhecer um lugar que é travesseiro macio para quem deseja descansar o âmago, a Ponta de Humaitá, que fica pertinho do Forte de Monte Serrat, construído no século XVI.

Agora estou em casa com as fotografias e reflexões na memória que me enriquecem e me fortalecem no sentido de continuar sendo um bom navegador. Se Deus permitir, em breve, vou retornar ao sindicato para tomar um cafezinho e, novamente, da janela, contemplar o mar entre os prédios.

*Edelvânio Pinheiro é jornalista, radialista e militar.