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Sou agora apenas o cachorro cor de caramelo que viveu pelas ruas de Jaguaré

Edelvânio Pinheiro

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Não nasci com tanta sorte.

As ruas de Jaguaré, no Espírito Santo, desde que me lembro, foram o meu lar. No vaivém do trânsito eu me esquivava para sobreviver, naturalmente. Houve uma época em que imaginei ser invisível porque as pessoas não me notavam. Já passei por diversos apuros, mas sempre acreditei que os humanos tinham pressa e então eu fazia de tudo para não incomodá-los.

Eu andei por muitos lugares à procura de alimento e abrigo sem que ninguém me desse a mínima atenção, até que um dia, deitado em frente a uma loja, um homem sorriu pra mim. Ele estava com duas vasilhas, uma de água e outra de comida. Fiquei receoso, mas ele insistiu. Então me aproximei, comi e bebi e achei que tudo era bom. Decidi ficar por ali, afinal, não me lembrava de ter tido um aconchego daqueles na vida.

Notei que havia muitos outros como eu, mas também havia muitos outros como aquele que matou a minha fome e a minha sede naquela tarde chuvosa.

Apesar das noites frias do inverno e das tardes escaldantes do verão, eu apreciava as manhãs mornas e a doce tranquilidade de tirar um cochilo sem ser surpreendido com alguém me dando chute ou jogando pedras. Sim, acredite! Ainda existe muita gente que nos odeia.

Os dias seguiam seu baile natural e eu estava feliz, enfim. Naquele bairro onde eu decidi morar percebi que eu não era culpado por existir. Notei que eu não incomodava as pessoas. Ao contrário, me tornei o que sempre fui: amigo de todos.

Minha cor de caramelo era um toque a mais de simpatia e, assim, me tornei mais dócil. Na batalha diária, vez ou outra, minha espécie se vê obrigada a latir ferozmente, mas, ali, não havia esta necessidade.

E tudo estava bom pra mim.

A rua sem portas, nem janelas e havia café da manhã e água fresca nas portas das lojas ou de uma residência qualquer. Eu não sonhava com Nova York, Londres, Paris e nem com Dubai. Nunca pensei em carros importados e nem com um belo apartamento de frente para o mar. À noite eu adormecia vendo estrelas e sonhava em um dia ter uma família de humanos, pois a idade se aproximava e as portas e as janelas certamente logo, logo fariam falta para mim.

No dia 12 de outubro a cidade estava calma, não havia a movimentação de sempre no trânsito, parecia até que era feriado. Me recordo que, logo pela manhã, um garotinho tocou a minha cabeça e seguiu feliz com seus pais para comemorar o Dia das Crianças. Eu sorri pra ele de um jeito que só os cães sabem fazer.

Às vezes, no dia a dia das ruas, a gente se cansa um pouco, é natural! Mas eu não estava doente e nem com fome como você diz ter pensado. E eu jamais imaginaria que aquele seria o meu último dia em Jaguaré. Eu tinha planos de ter uma família na cidade onde nasci e acreditava que este sonho estava por se realizar. Não faz muito tempo que um casal quase me levou pra casa.

Inevitavelmente, a falta de portas e janelas em minha vida corroborou para que eu me encontrasse naquela fatídica noite com você. Em sua existência, você não foi um bom agricultor e permitiu que as ervas daninhas devorassem as flores do seu jardim. No complexo turbilhão de sua personalidade, você imaginou que eu precisava ser sacrificado. E a sua masmorra psíquica foi o juiz que determinou a minha sentença.

Mas eu não tive como me defender. Eu estava quieto e calmo, como se fica quando não se sabe que vai morrer. De repente você se aproximou, parou o carro e eu me lembrei do sonho que sempre sonhava, o de finalmente ir pra casa. Deixei então você passar a corda em meu pescoço, talvez assim você se sentisse mais tranquilo e seguro.

Quando me amarrou no para-choque traseiro, imaginei que não quisesse sujar seu lindo carro e, quando você acelerou, eu corri alegremente, pensando que a nossa casa era pertinho e eu podia ir ali atrás mesmo, até tomar um banho pra poder ir com você no banco da frente. Mas você acelerava mais e mais e cada vez mais…

Houve um momento em que eu não pude mais correr e você me arrastou pelas ruas de Jaguaré. E tudo foi ficando para trás, minha rua, meus amiguinhos, a loja e a vasilha de ração. Eu lutei pela sobrevivência, na esperança de que a qualquer momento você voltasse ao seu estado humano, mas não foi isso o que aconteceu.

Primeiro, senti aflição e dor e depois comecei a não sentir mais nada, até que você voltou e me chutou até o meio-fio da rua.

A luz se apagou, então. Me senti leve como uma pluma que é levada pelo vento. Mas não mais estou sendo arrastado e não há mais nenhuma corda em meu pescoço. Sou agora apenas o cachorro cor de caramelo que viveu pelas ruas de Jaguaré.

[Fábula de Edelvânio Pinheiro]