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Zarfeg comenta “A Namorada”, conto de Ana Guimarães publicado no Dia dos Namorados

Edelvânio Pinheiro

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Como costuma acontecer, fui avisado sobre mais uma publicação da minha amiga virtual Ana Guimarães na última quarta-feira (12). Faço questão de ler os contos e poemas dela publicados no Facebook e/ou em revistas eletrônicas. Ela é psicanalista de profissão e tem como escritores de cabeceira Rosa, no Brasil, e Joyce, no exterior, o que é no mínimo revelador.

Trata-se de “A Namorada”, conto bem providencial – já que estávamos em pleno Dia dos Namorados – e protagonizado por João e Teresa.

Logo no início, João é apresentado aos leitores sem meias palavras: jovem com boa formação cultural e humanística, com carreira profissional iniciada e, portanto, bem encaminhado na vida social.

Como nem tudo são flores – diria o Conselheiro Acácio –, João tem sérios problemas de autoafirmação, que passam pela sexualidade (obsessão pela figura materna), pela religiosidade (anjos ou santos, afinal?) e, também, pela busca desesperada da mulher ideal, ou melhor, da mulher real, segundo a autora.  

Cansado de reprimir desejos libidinosos, sufocado por fantasias sexuais e correndo risco de ser inundado por poluções noturnas frequentes, o jovem se vê forçado (necessitado mesmo) a encontrar a mulher da sua vida. Ou, pelo menos, uma parceira que seja capaz de livrá-lo da virgindade incômoda…

Nesse ponto do texto, o encontro de João com Teresa é iminente e terá primeiro teste culinário, digamos assim, no restaurante de comida a quilo. Na hora de montar a salada, o rapaz fica indeciso entre um item e outro, já que são tantos. Nesse momento, na fila atrás dele, ela sugere vinagrete com mel e nozes…  Experimenta, ela diz. Aceito, ele responde, mas, depois, detesta…

Pense numa pessoa insegura, reticente e cheia de frescuras! Agora pense num camarada que, cheio de expectativas, passa a flertar com a ruiva linda de morrer, com uma grossa aliança de ouro na mão esquerda, lhe retribuindo os flertes com olhares de soslaio…

No segundo dia, no mesmo local, à hora do almoço, eles se aproximam ainda mais, de sorte que, em uma semana, já estão próximos e íntimos, no apartamento dele, ela nua recitando poesia francesa, ele tentando impressioná-la com teologia. João e Teresa e vice-versa.

Para resumir, a relação deles chega ao fim antes de completar um aninho. Chegar a termo sem cumprir o tripé início/meio/fim é phoda, diria o filósofo.  Ela o acusa de ser indeciso, de não levá-la a sério. Acusa João, o reticente, não Rodrigo ou Bá Ina, que são coadjuvantes nesse enredo obsessivo-compulsivo. A cena é desesperadora, mas basta de spoiler.

É escusado dizer que a narradora detém o domínio da história e dos recursos artístico-expressivos, pois manda ver muito bem e nós, leitores, somos premiados com uma narrativa envolvente, tanto do ponto de vista da fábula quanto do da expressão, inclusive com o recurso do discurso indireto livre.

“Os Amantes”, do pintor surrealista René Magritte.

A NAMORADA – Ana Guimarães

Tinha permanecido deísta, mesmo após o repúdio à prática religiosa no qual uma rígida formação escolar jesuítica quase sempre resulta. Acreditava tanto na proteção divina contra todos os males como no atendimento de pedidos que suas rezas diárias evocavam. Pesadelos repetidos faziam-no acordar em ereção ou já tendo que trocar o pijama no meio da noite. Pela manhã, enquanto se barbeava olhando com interrogação o espelho, associava a partir de fragmentos oníricos, baseado no que aprendera naquela eletiva Introdução à Psicanálise que havia cursado só por causa da professora, a que ondulava os quadris pelos pilotis, enlouquecendo os alunos.

Sufocara anseios libidinosos para não prejudicar os estudos. Promessa cumprida (curso acadêmico concluído com louvor, vida profissional iniciada), ia tratar de saciar sua fome dos sentidos tão bem quanto as do espírito e do intelecto. Implorou a todos os santos e anjos que fizessem aparecer a mulher ideal, quer dizer, real, de carne e osso, aquela que o livraria da incômoda virgindade. Que o faria homem. Daria um basta à repressão e aos jogos de ilusão, coisas de criança ou louco. Submeter-se-ia, enfim, às leis da natureza. Para isso impunha um prazo ao acaso, um mês no máximo, pensava, vendo o porta-retrato com a foto da doce figura materna de maiô na piscina, objeto de fantasias masturbatórias, na falta de uma Playboy qualquer à mão.

Se conseguir chegar no fim da plataforma antes que a composição do metrô termine de passar é sinal de que vou conseguir. Duvido, o trecho da caminhada é longo, por mais que eu corra… Pronto, não é que deu? Se o número de pedras brancas for superior ao das pretas até chegar à galeria, vou conhecê-la hoje. Putz, quem mandou seguir tais impulsos obsessivo-compulsivos? Que frio na barriga, que taquicardia! Até parece que não quero o que desejo.

Dez para as duas, confere ao entrar no restaurante, tendo que esperar uma pequena fila de retardatários comensais. Fora a costumeira indecisão na hora da montagem da salada, será que consigo me resolver antes que algum gaiato comece a reclamar? Meu Deus, é opção demais! A pessoa logo atrás na fila, gentil, tenta ajudar, ou será por que cansou de esperar? O vinagrete com mel e nozes é a melhor pedida, experimente. É o que faço, e detesto. Passo a vigiá-la na mesa ao lado, linda, rosto enfiado num livro de francês, não sei se lendo ou para suportar os olhares baços, afastar possíveis paqueras, já que ostenta uma grossa aliança de ouro na mão esquerda. Termino a refeição e agradeço com sinal de positivo. Ela sorri mais com os olhos do que com a boca. Mesmo assim parece dizer um il n’y a pas de quoi bem sincero. Era ela, tinha certeza agora. A primeira da minha vida.

Dia seguinte fico zanzando por ali na hora do almoço, esperando-a. Já desistia, quando a ruiva aparece, de novo sozinha. Aproximo-me ligeiro do balcão e começo a fazer meu pedido, enfatizando: o molho é o de mel, aquela dica foi ótima, viu? Qual o seu nome? Teresa. D’Ávila? Como? Nada, brincadeira, o meu é João. Da Cruz, para seu deleite e gozo.

Em uma semana ela já frequenta o meu apartamento. Na qualidade de amiga, bem entendido, com a empregada, minha ex-babá, torcendo o nariz e fechando a cara por causa do tal anel que denuncia sua condição civil. O filho de um ano é seu assunto preferido, além de literatura, já que mestranda em letras, trabalha com tradução numa pequena editora. Fala com vivacidade da criança, o que a torna mais encantadora ainda, os grandes olhos azuis acinzentados se iluminam, as covinhas se acentuam, detalhe que o bebê herdara, vi nas fotos.

De repente, assim do nada, sem planejar, um beijo de despedida trocamos à porta do elevador. Nada lascivo, sensual, nada de língua, mal tocamos nossos lábios. Desculpe, não volte se não puder me amar, vou compreender. Ela nada responde. Rosto congelado, enigmático, se foi. Não dormi tentando desvendar a falta de expressão, o que significaria. Dia seguinte, mal chega vai logo falando, numa franqueza que descombina com a suavidade da voz: você nada fez para me seduzir.

O tempo passou sem que nos déssemos conta, e, antes que eu gozasse ao menos uma vez, uma mísera única vez (muito justo, comparado com sua tarde multiorgástica) a menina, ao mirar os brilhantes ponteiros do relógio no semibreu do quarto, dá um pulo da cama, preciso ir embora, tenho que ir buscar Rodrigo na creche. Tomo uma ducha rápida para tentar baixar os ânimos e volto ao quarto a tempo de vê-la fazer uma leve maquiagem. Observo-a com o canto do olho. A minha princesa! Cheguei atrasado, outro dragão passara antes e cuspira seu fogo nela.

Encontrávamo-nos todas as tardes, mesmo que não fosse para transar, mas quase sempre era. Nem comíamos mais, sorvíamos um ao outro de tal maneira que nos bastava. Emagrecemos a olhos vistos, mas transparecíamos felicidade de longe, assim depois me contaram atentos e discretos observadores. Essa moça, nua, lia poesia francesa para mim enquanto eu a impressionava – ou pensava que, ou tentava – falando de teologia. Bá Ina havia reclamado a princípio, mas discreta, saía e só voltava à noitinha, deixando-nos à vontade. Os amigos, ao contrário, estranhando minha ausência de todo e qualquer programa em grupo, fuçavam como loucos meu laptop, celular, crivavam-me de perguntas querendo saber com quem eu estaria envolvido. Já ia completar um ano nessa brincadeira. Séria brincadeira. Uma noite o telefone toca e, sem preâmbulos, como é seu estilo, avisa: precisamos conversar, não aí, num lugar público qualquer, zona neutra.

Nem precisava, entendi na hora. Ou seja, no minuto, no segundo. Tenho dor de estômago e fico sem poder engolir qualquer coisa, ao lembrar da cena, Teresa falando acabou, basta dessa situação insustentável, você não se decide! E eu em silêncio, só lambendo com a ponta do indicador o resto do molho de mel da salada.

[Por Almir Zarfeg. Foto da capa: Ana Guimarães, psicanalista e escritora, em visita a Paris]