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Zarfeg comenta “Moral da História”, livro do poeta e filósofo Ademar Bogo

Edelvânio Pinheiro

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Finalmente, e com grande curiosidade, estou conhecendo uma obra do poeta, contista e ensaísta Ademar Bogo. Começo pelo fim e pelo ensaio, uma vez que “Moral da História” veio a público pela Appris Editora, de Curitiba/PR, neste terrível ano de 2020.

A obra trata da boa e velha moral da história, que é marca registrada dos três gêneros textuais próximos e antiguíssimos – a saber – a fábula, a parábola e o apólogo, os quais dão voz a animais, pessoas e objetos, respectivamente.

A moral da história é nada mais nada menos que a lição que se tira da leitura de determinado texto, em verso ou prosa, com intenções moralizadoras. Assim, ela remonta às narrativas originárias e às tradições orais fundadoras e irradiadoras da cultura ocidental. Enfim, daquilo que denominamos civilização.
E Bogo, que entende do riscado e aprecia um desafio, chamou para si uma tarefa das mais relevantes e reveladoras: explicar teoricamente a moral da história, que abarca sete capítulos no livro e, ao mesmo tempo, ilustrá-la com exemplos extraídos da sua própria produção. Para explicar o 1º capítulo intitulado “A moralidade da identidade”, por exemplo, ele lança mão da fábula “O frango e o galo”. O mesmo recurso é utilizado no 2º capítulo cujo título é “Igualdades e falsidades democráticas”, e assim por diante.

Antes de partir para a exemplificação, contudo, Bogo procede a uma investigação filosófica passando em revista conceitos e ideologias, a maioria dos quais buscada na tradição antiga e no classicismo grego – perpassando pensamento medieval, modernidade e contemporaneidade – até desembocar no pós-tudo dos nossos dias. Para tanto, dialoga com uma miríade de pensadores, teóricos e escritores, nacionais e internacionais – diacrônica e dialeticamente –, de maneira a sustentar à perfeição o tema da moralidade na arte da palavra.

Ao estabelecer a filosofia como plano de conteúdo e a literatura como plano de expressão, Bogo bota para quebrar e, claro, dá conta do recado. Manejando as ferramentas teórico-filosóficas, ele não só argumenta prós e contras, cita autores e obras e problematiza textos e contextos como, ainda por cima, nos convoca ao prazer literário e ao embate filosófico. Porque aquele inspira a emoção e este desperta a consciência, levando-nos a experimentar a vivência total.

A literatura – no tempo e no espaço – enriquece e imprime leveza à argumentação. Que dizer do rap, que se funde com a análise teórica e conduz o texto com sua torrente rítmica e sonora? No início, vi com desconfiança tal recurso porque – desde sempre – a rima e o ritmo não são bem-vindos à prosa! Mas são habitués do texto poético!

Alertado pelo autor e pelo prefaciador, porém, fui acostumando o ouvido ao vaivém das rimas e ondas rítmicas. Aliás, ao optar pelo rap como recurso literário e estratégia expressiva, Bogo não só deixou o texto mais leve, mas também atrativo pros leitores, experimentados ou não. Convencido, eu me surpreendi em alguns momentos lendo em voz alta trechos do ensaio. Porque este texto é para ser lido e/ou dito como um recital.

Além do mais – por se tratar de um assunto conectado à tradição narrativa oral, como a fábula e o conto de fadas –, Ademar Bogo tinha feito as escolhas adequadas. Seja como autor de “Cartas de amor” (gostaria de ler em breve) ou militante social, ele sabia para qual público-alvo havia escrito “Moral da História”. O certo é que a ênfase vocal, proporcionada pelas rimas, não comprometeu a clareza do texto e sua recepção pelos leitores. Mas há problemas com a revisão textual.

Torço para que este encontro da filosofia com a literatura vá encantar seus receptores e, quem sabe, amenizar a opressão diária que pesa sobre seus ombros. Num processo de catarse ou conscientização. E a moral da história abra suas mentes. Tudo vai depender da qualidade das conclusões que cada um for capaz de tirar deste manual de marxismo literocultural.

Então à leitura, meninos e meninas! A leitura que, já dizia o moralista, não alimenta senão digerida!

Adquira exemplar da obra aqui

Ademar Bogo.